
Durante muito tempo, acreditei que precisava me alinhar melhor para que a vida finalmente fluísse.
Busquei na fé a entrega, e na ciência as explicações.
Mas, sem perceber, transformei ambos em metas.
A fé virou cobrança silenciosa.
A ciência virou tentativa de controle.
Quando ouvi José Maria falar da santidade no cotidiano, algo em mim reconheceu a verdade —
mas eu ainda traduzia isso como desempenho espiritual.
Como se santidade fosse constância impecável,
quando na verdade é fidelidade possível.
A neurociência veio depois, explicando aquilo que o corpo já gritava:
não existe clareza contínua sem exaustão,
não existe motivação constante sem custo neurobiológico,
não existe expansão sem ciclos de recolhimento.
Meu sistema nervoso não precisava de mais intenções.
Precisava de segurança.
A ciência não anula a fé.
Ela revela os limites humanos dentro dos quais a fé se encarna.
E a fé não invalida a ciência.
Ela dá sentido ao processo quando os resultados ainda não aparecem.
Aprendi que ansiedade não é falta de confiança em Deus,
é excesso de exigência sobre mim.
É quando tento sustentar, sozinha, aquilo que deveria amadurecer com o tempo.
A física me ensinou que tudo vibra.
A neurociência me ensinou que tudo cansa.
A espiritualidade me lembrou que nem tudo precisa ser resolvido agora.
Talvez minhas bênçãos não estejam atrasadas.
Talvez estejam sendo gestadas em camadas invisíveis:
na minha capacidade de permanecer,
de integrar quedas,
de não abandonar a mim mesma nos dias comuns.
Santidade no cotidiano não é sentir-se adequada.
É continuar mesmo se sentindo inadequada.
É oferecer o real — cansado, humano, limitado —
e confiar que isso basta.
Hoje eu escolho uma fé que não acelera,
uma ciência que não me reduz a mecanismos,
e uma vida que respeita ritmos.
Não preciso vibrar mais alto.
Preciso habitar o que já sou.
E isso, paradoxalmente, é quando tudo começa a fluir.